O deslocamento da morte
Matéria publicada pelo site PONTE JORNALISMO 30/05/2026
Essa semana foi publicado o Atlas da Violência 2026, levantamento produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Convido vocês a lerem as excelentes reportagens que Paulo Batistella e Mariana Rosetti produziram para a Ponte a partir dos dados divulgados neste ano.
O Paulo escreveu sobre os chamados “homicídios ocultos”, categoria usada pelo Atlas para designar mortes violentas em que não há esclarecimento sobre a intencionalidade da ocorrência. Na prática, são casos que podem esconder assassinatos não contabilizados oficialmente e que ajudam a ampliar o retrato real da violência letal no país.
Já a Mariana tratou de um dado que me parece central: embora o número de mortes de mulheres fora de casa tenha diminuído, os assassinatos cometidos dentro da residência seguem praticamente estáveis há dez anos. Isso nos faz questionar os limites de como o tema vem sendo tratado no Brasil e reforça a necessidade de falar cada vez mais sobre prevenção, proteção e políticas estruturais de enfrentamento à violência de gênero.
Mas um outro ponto do Atlas me chamou muita atenção. Há um mapa no relatório — um Brasil em vermelho intenso — que evidencia uma tendência muito triste e que vem sendo denunciada há anos por movimentos sociais do Norte e Nordeste: o deslocamento geopolítico da violência letal no país.
Os dados de 2024 mostram que os estados com os maiores índices de violência letal seguem concentrados no Norte e no Nordeste. O Amapá aparece com 45,7 homicídios a cada 100 mil habitantes; a Bahia, com 40,9; Pernambuco, com 37,3; Alagoas, com 35,9; e o Ceará, com 34,3.
Quando o Atlas compara os dados de 2014 a 2024, o cenário se repete. Os maiores aumentos no número absoluto de homicídios ocorreram justamente no Amapá, Amazonas, Pernambuco e Bahia.
Nada disso surge agora. Em 2025, a Ponte publicou um especial sobre a história dos Fóruns Populares de Segurança. Entre eles, o Fórum Popular de Segurança Pública do Nordeste, criado oficialmente em 2019, mas articulado desde 2017, já partia da percepção de que o eixo da violência letal estava se deslocando no Brasil.
Naquele período, os dados do próprio Atlas já apontavam Pernambuco e Ceará vivendo alguns dos seus piores patamares de violência, na casa dos 5 mil homicídios por ano. Pesquisadores, ativistas e integrantes de movimentos sociais perceberam, porém, que aquilo não era uma dinâmica isolada dos dois estados. Existia algo maior acontecendo na região como um todo.
A partir dessa leitura, eles passaram a usar o termo “nordestinização da violência” para descrever a mudança do eixo da violência letal no país, cada vez mais concentrada no Norte e no Nordeste e tendo, sobretudo, jovens negros como principais vítimas.
Esse processo foi associado, por pesquisadores e integrantes do Fórum, ao deslocamento e à expansão de facções criminosas que historicamente tinham presença mais forte no Sudeste, especialmente o PCC e o Comando Vermelho.
Em entrevista à Veja, em 2024, o sociólogo José Luiz Ratton, então coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Criminalidade, Violência e Políticas Públicas de Segurança da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pesquisador da Fiocruz, afirmou que os estados nordestinos passaram a ocupar posição estratégica nas rotas do tráfico internacional de drogas vindo de países andinos.
Segundo ele, o aumento das mortes pode ser interpretado como reflexo de um narcotráfico fragmentado em facções locais que passaram a estabelecer alianças com PCC e Comando Vermelho, intensificando disputas armadas na região.
Os pesquisadores do Fórum também apontam outro elemento para entender essa escalada da violência: a ausência de respostas estatais que não sejam militarizadas. E isso atravessa inclusive governos de esquerda. A Bahia, governada há anos pelo PT, é frequentemente citada como exemplo de um estado que respondeu ao avanço da violência com políticas fortemente baseadas em repressão armada e expansão das ações policiais.
Os números do Atlas da Violência 2026 mostram que as principais vítimas seguem sendo as mesmas. Em 2024, a taxa de homicídios entre pessoas brancas, amarelas e indígenas foi de 10 mortes por 100 mil habitantes. Entre pessoas negras, pretas e pardas, o índice chegou a 27,3 por 100 mil.
No Amapá, estado com a maior taxa de homicídios do país, a taxa de mortes violentas entre pessoas negras chegou a 58,8 por 100 mil habitantes. Os piores indicadores voltam a se concentrar justamente no Norte e no Nordeste.
Nada disso é exatamente novidade. São dados que há anos vêm sendo apontados por pesquisas, movimentos sociais e organizações locais. Ainda assim, a discussão pública sobre segurança frequentemente permanece concentrada na experiência do Sudeste, nos roubos de celular em São Paulo, nos roubos de aliança e nas disputas territoriais do Rio de Janeiro, enquanto o avanço da violência letal no Norte e no Nordeste parece receber menos atenção nacional e menos respostas estruturais.
Catarina Duarte - Editora Chefe de Ponte Jornalismo
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